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DESAFIOS PARA A ESCALADA DA CRIMINALIDADE

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O Brasil do século XXI é uma nação com aproximadamente 210 milhões de habitantes, que vive inúmeros paradoxos e dá sinais de ter estagnado em uma encruzilhada cujo nó parece não desatar. O novo milênio só chegou para o Brasil em termos de passagem temporal. O país do futuro apresenta um cenário atrasado que insiste em demonstrar que muito pouco evoluímos daquele desejo de 70 anos atrás.
 
É fácil constatar que não avançamos como deveríamos em saúde, educação, tecnologia e infraestrutura, por exemplo. Mais triste ainda é confirmar que no tocante à segurança andamos para trás.
 
A violência tomou conta do Brasil! Dados de qualquer instituto comprovam facilmente que o índice de criminalidade cresceu assustadoramente nas duas últimas décadas, com destaque para capitais do norte e do nordeste e até para pequenas cidades de interior, que passaram a figurar na macha da violência.
 
Decerto que a violência deve ser analisada como um fenômeno social, afinal exsurge das relações que estabelecemos uns com os outros. Mas a sua gestação perpassa diversos fatores acerca dos quais teimo em pincelar um olhar crítico sobre alguns deles.
 
Debates carregados de ideologia sobre vitimização do criminoso ou da sua culpa exclusiva não contribuem para uma saída razoável do problema. Não invoco o determinismo para marcar minhas posições, mas não consigo meditar sobre a criminalidade dissociada de seu contexto social. Os ensinamentos rousseaunianos de que o homem nasce bom e o meio o corrompe, precisam ser considerados ao se buscar as causas da violência fora de controle.
 
Atrevo-me a dizer que uma das causas principais da alta taxa de violência está associada à pobreza. Não digo com isso que ser pobre é um problema; longe de mim, um ex-flanelinha morador de palafita. Ocorre que a pobreza traz consigo muitas privações, obrigando pais e mães de famílias passarem o dia longe dos filhos, que por sua vez crescem sem as principais referências familiares.
 
A desigualdade na distribuição das riquezas é a principal causa de inúmeros problemas sociais, inclusive a pobreza. Dar a “volta por cima” não é uma tarefa fácil e alguns terminam apanhados pelas desventuras de uma vida sofrida.
 
A pobreza se reproduz nos guetos, nas palafitas, nas comunidades. Embora lugares de gente digna e honrada, por vezes são esquecidos pelo poder público. O filme Cidade de Deus retrata de forma categórica como se processa o surgimento e o aumento da criminalidade nessas regiões. A violência nas comunidades, sejam daqui ou da Cidade Maravilhosa, não surge da noite para o dia.
 
Essas regiões mais pobres são marcadas por um histórico, antes de tudo, de violência social. Muitos ali estão refugiados das secas ou das cheias constantes de um campo que já quase nada produz. O êxodo rural é um dos principais fatores de inchaço populacional das grandes cidades e que fez aumentar sobremaneira os aglomerados de moradias irregulares e até em áreas de risco. Tudo isso com a conivência do poder público.
 
A lacuna deixada ao longo de décadas pelo Estado tornou as pessoas que moram nessas regiões cidadãos esquecidos, anônimos. Geralmente é desse espaço que grupos criminosos precisam para se instalar, se consolidar e passar a ditar as normas dentro desta ou daquela comunidade como um poder paralelo, com leis e regras próprias.
 
Nesse particular, as drogas se apresentam como o carro chefe, o bem mais precioso, fazendo com que a vida da comunidade passe a orbitar em torno delas. A chegada das drogas abre uma vida de infinitas possibilidades àqueles menores que estão desassistidos pelos pais que possuem uma longa jornada de trabalho. Faz crescer na região os crimes contra o patrimônio, as disputas por espaços, os crimes contra a vida.
 
Não por acaso, pode-se inferir, seguramente, que pelo menos 80% dos crimes contra o patrimônio e contra a vida estão, de alguma forma, relacionados com as drogas, que por sua vez faz movimentar a cadeia da violência em todo país.
 
Obviamente que a violência está também nas classes média e alta. Mas posso assegurar que são as camadas mais frágeis que sofrem com seus efeitos mais nefastos e onde precisa maior intervenção por parte do poder público que, por anos, relegou essas áreas à própria sorte. Quanto a isso, não existe exemplo melhor do que as UPPs, no Rio de Janeiro, embora a corrupção tenha corroído tão importante projeto social.
 
Inúmeras comunidades cariocas passaram a respirar outros ares com a chegada dessas unidades de polícia e de outras benfeitorias. Negócios foram abertos, a economia local foi movimentada, projetos sociais ganharam força, a qualidade de vida respirou nas favelas cariocas, mesmo que por um curto espaço de tempo.
 
Aquela experiência comprovou que é possível mudar. O Estado precisa voltar a ocupar o papel de protagonista na sociedade, promovendo políticas públicas capazes de acabar com a pobreza e de devolver a dignidade aos cidadãos. As comunidades precisam estar melhor estruturadas e o aparelhamento público condizente com a sua realidade.
 
Os núcleos familiares e comunitários devem ser resgatados, ao mesmo tempo em que se garante o acesso a serviços de saúde de forma plena e ao ensino de qualidade e integral, pois só a educação pode fazer a transformação maior da qual necessitamos.
 
Portanto, a violência não existe por si só. Ela não é causa, mas consequência de um círculo vicioso cujo necessário rompimento já extrapola o badalar das horas. É chegado o momento de acabar com a pobreza, não apenas no que diz respeito ao aspecto financeiro, mas a pobreza de espírito, de valores, que corroem os sonhos de uma nação.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.

O VALOROSO LÁPIS

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Estou em todo lugar. Basta a vontade irrefreável de trazer para o mundo concreto aqueles mais íntimos pensamentos, que lá me manifesto. Dou vida a ideias, retrato características por vezes abstratas de um real quase imaginário. Minha composição é por deveras simples – está na essência de quase tudo que existe – mas meu ofício é dos mais árduos. 
 
Passo de mão em mão, empresta aqui, dá acolá. Como uma das mais belas metáforas, preciso sofrer na ponta de uma lâmina fria e afiada para oferecer o melhor de mim, ao mesmo tempo em que me consumo e me desfaço. Volto às minhas origens, como carbono que sou, na certeza de aqui regressar.
 
Sou instrumento de trabalho do poeta, escritor, de profissionais de várias áreas. Estou nos mais diversos ofícios e, certamente, estive presente na tenra idade, nas primeiras palavras rabiscadas por aquele que agora lê estes rascunhos deixados nesta página em branco, com quem funciono desde sempre em perfeita harmonia.
 
Traduzo o sorriso da criança no parque, tal como denuncio a tristeza no olhar do pequenino que vende balas entre um vermelho e outro de um semáforo qualquer. Critico com veemência as mazelas de uma sociedade por deveres carregada de hipocrisia, mas ao mesmo tempo repleta de solidariedade e compaixão.
 
Não tenho medo de retaliações e jogo pesado com aqueles representantes públicos cuja encenação não passa de uma mera tragédia da vida cotidiana, que em nada representam os interesses coletivos. Da mesma maneira, presto reverência àqueles que ousam fazer diferente e dignificam a confiança recebida de um povo. 
 
Vivo um eterno paradoxo entre o belo e o feio, o sim e o não, o pode e o não pode, o certo e o errado. Afinal, qual é mesmo o lado certo da moeda, se não aquele que interessa a quem convém? Sou apenas um instrumento que traduz um copo que pode estar meio cheio ou meio vazio. Assim, muitas vezes deslizo na conveniência daquele que me conduz.
 
Trago notícias boas, de conquistas, de superação, de cura. Mas teimo em fazer lágrimas correr de rostos, por vezes ingênuos, tamanha a emoção da tristeza, das tragédias, que não posso fugir à missão de retratar. Como diz o dito popular: são ossos do ofício.
 
Sigo falando das nuances da vida, dos carmas, das infâncias abandonadas a uma árdua vida de duro trabalho. Aqui ou acolá, transcrevo em detalhes sórdidos as vidas ceifadas, as famílias que ficbam órfãs. 
 
Já me reinventaram por diversas vezes. Formatos, aromas, tamanhos, cores. Mas minha essência permanece a mesma, e receio que assim se perpetuará. Decerto que nem sempre será possível deixar minha marca, eis que surge uma rebelde borracha, que adora pregar peças, e se posta a desfazer, bem-feito, aquilo nem sempre tenho zelo e esmero.
 
Apenas a borracha – e não é qualquer uma – é capaz de limitar minhas inquietações. Desfaz-se a linha mal traçada, meio fora de prumo, que reproduziu pensamentos que agora não passam de arrependimentos, de desilusão, daquilo que já não é mais.
 
Com ela vivo uma relação paradoxal, em alguns momentos de amor e ódio, já que ela insiste em apagar os traços que vou deixando pelo caminho. Por isso, preciso estar sempre seguro, convicto de minhas posições. Se errado, ela, a borracha, reaparece para me mostrar que nem sempre sou dono da razão.
 
Com humildade, reconheço minhas falhas e me refaço, tornando a deixar gravadas as minhas marcas. A bem da verdade, quisera eu que apenas as marcas boas ficassem para posteridade, que apenas as mágoas, tristezas, tragédias e tantas outras impressões ruins fossem simplesmente apagadas. Como seria bom!
 
Há casos em que, por força de norma, sou relegado e não posso me fazer presente. Ah, mas considerando a máxima de ser permitido o que não está proibido, aproveito para me deleitar em doces e ingênuas mãos, ainda que me afague de forma desajeitada e sem a coordenação apropriada. Que bom seria ser sempre levado por essa indolência pueril.
 
Mas reforço ser apenas um instrumento, cujo resultado de todo esforço também é o que chamamos de “mundo real”, das dores e sofrimentos cotidianos.
 
Seguindo a régua e o compasso, ou mesmo descompassado, teimo eu em meus rabiscos, meus traços, traduzidos em música, poesia, notícias, desenhos. Aguço os mais diferentes sentidos na tentativa de, por vezes sem sucesso, causar uma impressão, deixar minha marca.
 
Sou um lápis, feito essencialmente de carbono. Minha principal característica é a persistência em transcrever, em alvas folhas de papel, aquilo que é captado com a alma. Faço, me desfaço e me refaço numa interessante trama dramatúrgica, que persiste em dialogar entre o real e o imaginário, dando vida e sentido a um cotidiano em preto e branco.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.

SÓ A EDUCAÇÃO TRANSFORMA

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Em qualquer parte sobre o globo, qualquer que seja a nação, a educação é tema recorrente e, sem dúvidas, o mais essencial para um povo. Desde que o mundo é mundo e o homem compreende seu espaço no meio em que habita, o processo de conhecimento passou a ter importância. Hoje, é lugar comum dizer que só a educação é capaz de transformar, de fazer prosperar uma nação.
 
Um dos mais influentes líderes políticos do século XX, Nelson Mandela, afirmou que a educação é a arma mais poderosa que se pode dispor para mudar o mundo. O ídolo do nosso esporte, Ayrton Senna – cuja morte completa 25 anos – disse que se alguém pretende mudar alguma coisa na sociedade deve começar pela educação. Obvio, não? Sim e não ao mesmo tempo.
 
Seja na política, no esporte ou em qualquer outra área em nossa sociedade, a educação é uma sinfonia de uma nota só. O problema é que os componentes dessa orquestra parecem estar ainda muito desafinados – fora de sintonia – e longe de apresentar um grande espetáculo ao cidadão.
 
Comemoramos, no último dia 28, o Dia Mundial da Educação. Bom, na verdade não há tantos motivos assim a se comemorar, a não ser o fato de a data servir como reflexão para o extenso caminho que ainda temos a percorrer.
 
A data é celebrada desde 2000, quando da realização do Fórum Mundial da Educação que reuniu 164 líderes mundiais, no Senegal. Naquela ocasião, houve um pacto firmado para que as nações não poupem esforços a fim de que a educação chegue para todos, em quantidade e qualidade.
 
No entanto, quase 20 anos após a conferência, estudos apontam que professores brasileiros recebem salários menores do que a média em países desenvolvidos, crianças ainda estão fora da escola, a merenda é de péssima qualidade e o transporte escolar, além de insuficiente é, em grande parte, precário e inadequado.
 
Exsurge aqui uma peculiar reflexão, que me faz questionar o que nos difere tanto desses ditos países? Será que somos inferiores na escala evolutiva? O rótulo do subdesenvolvimento está impresso no gene de cada brasileiro? Não. O fato de estarmos tão atrasados do ponto de vista do progresso é o fato de que lá, os “gringos” levam a sério questões que aqui são relegadas a segundo, terceiro, quarto plano, a exemplo da educação.
 
Nosso sistema é pesado. Isso inviabiliza reformas estruturantes, tal como a da educação. Burocracia e até disputas políticas impedem que avanços significativos ocorram, tal como na educação. A falta de qualificação e investimento permanente em infraestrutura interfere na melhoria dos processos, tal como na educação. A corrupção corrói a infraestrutura, a qualificação, os salários, tal como na educação. Roubam-se a dignidade e a esperança de um povo.
 
A educação pública brasileira, com raros esforços, está na berlinda. Faltam condições mínimas dentro e fora das salas de aula. Falta merenda, faltam carteiras, falta qualificação e melhor salário para os professores, assim como a adequada divisão por classes, uma vez que ainda é realidade em centenas de municípios brasileiros as salas multisseriadas no ensino fundamental.

Ainda temos municípios, aqui mesmo em nosso Estado, não tão diatante da capital, em que as escolas estão desabando, quase que caindo sobre as cabeças das crianças, outras estão desativadas e as ceianças estudando em locais inadequados e tomando água diretamente da torneira armazenada em balde de zinco, calamidade total, desrespeito e vergonha.
 
Nas grandes cidades, outro problema vem tirando o sono de coordenadores, professores, alunos e suas famílias: as drogas. Falta segurança para docentes e discentes, que estão se tornando reféns dos criminosos até mesmo dentro das unidades de educação. A consequência disso se reflete no episódio ocorrido na última semana, quando um adolescente de 17 anos invadiu uma escola em Goiás, sacou a arma e tirou a vida de um educador.
 
Tudo isso aponta para a falta de interesse em lecionar e de reproduzir educadores Brasil afora. A pesquisa Todos Pela Educação, divulgada recentemente, comprova que 49% dos professores não indicam a docência aos seus alunos. Esse paradoxo é o retrato que se tem de uma educação que está na UTI, cujos professores desvalorizados e desmotivados apenas conseguem manter vivo um paciente que agoniza.
 
Se há desinteresse na motivação para a docência, há manifesta renúncia à ideia de se tornar educador. O já trágico quadro termina por receber uma macabra moldura do relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que afirma que nos últimos anos caiu de 7,5% para 2,5% o percentual de jovens que pretendem se tornar professores no país.
 
Já na antiguidade Aristóteles afirmava que a Educação é a mola propulsora da sociedade, uma vez que ela desenvolve outras áreas essenciais ao povo. A cidade perfeita e o cidadão feliz, fim que deveria buscar o governante, só seria alcançada com Educação. Paulo Freire era defensor da pedagogia crítica, voltada para problemáticas da atualidade, por meio da qual o cidadão constrói sua consciência critica de forma autônoma.
 
O Brasil precisa sair dessa paralisia. Não há sucesso na vida – pelas vias legais e morais – se esse caminho não for sedimentado pela educação. O educador é o profissional mais importante em uma sociedade e um dos que deveriam ser mais valorizados, pois são eles que têm a missão de formar todos os demais profissionais. O futuro da nação passa pelas mãos dos professores.
 
Da Grécia antiga aos tempos atuais, o certo é que é necessário abandonar o discurso polido, repleto de retórica vazia, e partir para ações concretas em uma grande frente pela educação. Defendo um pacto republicano pela educação, envolvendo municípios, estados e união trabalhando juntos em uma só direção. O jovem não é o futuro, mas o presente, aqui e agora, para quem a atenção primordial deverá estar voltada.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.

CORTIÇO NOSSO DE CADA DIA

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Abril é mês de nascimento de Aluísio Azevedo, escritor maranhense dos mais destacados na literatura brasileira. Por essa razão, guardei um punhado de palavras e uma folha em branco para rememorar um pouco de uma de suas mais importantes obras: O Cortiço.
 
O cenário é o Rio de Janeiro, tendo como pano de fundo um cortiço – tipo de moradia de precárias condições estruturais. O ano, 1890, marca o fim da submissão do Brasil a Portugal e início do modelo republicano de governo. O fim da escravidão gera enorme demanda de mão-de-obra para o novo modelo de produção capitalista.
 
Neste novo contexto, ou se tinha algum tipo de ofício especializado – algo raro para a época –, ou se submetia ao trabalho exaustivo em troca de alguns poucos réis. A segunda alternativa era a mais comum para a massa de pessoas desocupadas, que agora precisam trabalhar para se sustentar.
 
Menos qualificação era sinônimo de salário menor, o que mal dava para manter as necessidades básicas. Moradia era artigo de luxo e felizardos eram aqueles que ainda conseguiam um canto em algum cortiço para uma noite de descanso. As instalações precárias eram o único espaço de morada voltado para aqueles com parcos recursos.
 
Neste mosaico social se passa uma das mais importantes obras do movimento naturalista. Uma vida marginal, cheia de malandragem, vícios, traições, ganância, cheia de perspectivas prostituídas pela falta de oportunidades e vazia de esperanças por uma sobrevivência digna.
 
As duas figuras centrais na trama, além do próprio cortiço, são o comendador Miranda e João Romão. Este último, um pequeno comerciante que a duras penas – e uma boa dose de ganância e desonestidade – cresce na vida. O primeiro, um afortunado, homem de posses, embora as mesmas tenham sido conquistadas junto com o matrimônio.
 
Romão possuía uma pedreira, uma quitanda e um cortiço. Fixou-se na ideia de enriquecer e para isso trabalhava duro. Movimentava parte de sua riqueza a partir do trabalho que oferecia – uma parcela de seus empregados eram também clientes da quitanda e inquilinos do cortiço. Já Miranda, além do dinheiro, possuía um sobrado, frequentado por pessoas letradas e de nível cultural mais elevado.
 
Havia uma rivalidade entre ambos, que só acabara após uma trama bem articulada de Romão para se casar com a filha do comendador, Zulmira. Romão ascende socialmente, torna-se barão, seu cortiço passa por um processo de modernização e se transforma em Edifício São Romão, habitado por pessoas de melhores condições financeiras.
                                                                                                                           
Outros, porém, seguindo seu carma social, vão para outro cortiço, chamado de Cabeça de Gato. Lá insistem em reproduzir todas as desventuras e devaneios de uma vida desregrada. Em síntese é esse o desenrolar da história.
 
No entanto, nas entrelinhas é que está a essência da obra. O Cortiço mostra o abismo social que existe entre dois mundos de uma mesma sociedade, o que por si só se torna atualíssimo para nossos dias. A casa grande e a senzala, o cortiço e o sobrado, o morro e o asfalto, a comunidade e os bairros nobres. A dicotomia social ao mesmo tempo encravada e escancarada em nossa história.
 
A cruel realidade retratada nos aglomerados urbanos do fim do século XIX, notadamente na Cidade Maravilhosa, está presente hoje, se não em todas, pelo menos na maioria das cidades e metrópoles brasileiras.
 
Não se pretende desmerecer quem ocupa essas áreas menos abastadas, mas apenas alertar para o fato de que em um país gerador de tantas riquezas, a classe pobre foi relegada à própria sorte. Alguns ascenderam socialmente, como João Romão, outros milhões continuam a reproduzir a luta diária pela sobrevivência e outra parcela significativa está às margens da lei e da ordem.
 
Assim, a vida no cortiço segue, dia após dia. Alegrias, tristezas, negociatas, paixões, traições, malandragem, prostituição, gente decente, outras nem tanto. Um mundo paralelo, no qual ainda predomina a lei do mais forte. Para sobreviver, é preciso matar um leão por dia.
 
O cortiço é de uma fase mais séria de Aluísio Azevedo, cunhado em uma crítica social onde mostra a essência humana em suas vicissitudes, escancarando seus medos, fragilidades, instintos, vícios, defeitos. Passa a ideia de que sempre existirá o abismo da desigualdade entre ricos e pobres, como um ciclo vicioso que não tem fim.
 
Azevedo segue a tese naturalista e tenta confirmar que o homem é resultado do meio social, da hereditariedade e do contexto histórico. Reforça ideias deterministas que predominam na época, configurado na ordem e progresso de nosso maior símbolo nacional.
 
É uma obra mais que atual e merece toda nossa atenção. Por mais que se tente combater algumas dessas ideias, ao estabelecer paralelos entre a realidade de outrora e a nossa pode ajudar a compreender o funcionamento de nosso amálgama social.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.

ÁGUAS QUE VÊM E QUE VÃO

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Água está na essência da vida. Ela é a base de tudo, uma espécie de matéria mãe, da qual todas as outras espécies precisam para sobreviver. Desde os primórdios a água estava lá, presente, composto líquido no qual acredita-se terem se originado as primeiras espécies. E tanto pelo ponto de vista biológico quanto fisiológico necessitamos dela para manutenção do nosso corpo e ecossistema em equilíbrio.
 
No entanto, as águas de março que fecham o verão parecem teimar em ficar para abril, maio… O Brasil possui dimensões continentais, expressão que virou lugar comum. Justamente por isso têm também características climáticas extremamente diferentes de uma região para outra, notadamente no que diz respeito às estações do ano e a sazonalidade das chuvas e das estiagens.
 
De norte a sul, leste a oeste, temos acompanhado verdadeiras tragédias e transtornos diários na vida de muitas cidades brasileiras em razão das fortes chuvas. Em nossa capital, particularmente, chuvas fortes e perenes começaram a cair desde novembro, algo incomum e muito distante daquelas noites de Natal ou mesmo de Réveillon, quando presenciávamos uma leve garoa. Chuva de verdade? Ah, estas só molhavam de verdade de fevereiro em diante, seguindo um curso de normalidade até junho.
 
Como no jargão popular, estas chuvas apanharam a todos de calças curtas – sociedade e poder público –, na capital e no interior. Isso porque, como seres humanos, aprendemos a conviver com a natureza e reagimos a ela conforme as intempéries que se apresentam. Deveria ser uma simbiose perfeita, se para ela devolvêssemos, na mesma proporção, os benefícios que nos concede tão generosamente.
 
Ao cabo de toda reflexão sobre esses desastres, a culpa parece se voltar sempre para um único ser, o humano. Seja pela ação predatória frente à natureza, o que especialistas garantem estar causando desequilíbrio e resultando em eventos naturais cada vez mais drásticos, seja pela falta de planejamento adequado frente a possíveis tragédias, muitas delas aparentemente anunciadas e evitáveis.
 
Embora em estágio avançado, ainda podemos reverter esse quadro, nas duas frentes: prevenção e reação às ocorrências. No primeiro caso, importante invocar a necessária mudança de comportamento frente ao consumismo desenfreado, em especial os recursos naturais disponíveis. Metas como a diminuição do aquecimento global, do desmatamento e poluição dos recursos hídricos precisam estar na pauta de toda a sociedade e não apenas dos governantes.
 
Não se pode negar que, via de regra, a grande parte da responsabilidade recai sobre os ombros da própria sociedade. É ela que elege seus representantes, que por sua vez devem agir em benefício da coletividade também no tocante à questão ambiental. Governantes, seja na esfera federal ou mesmo municipal, passam então a ter papel decisivo nas duas frentes apontadas.
 
O governo precisa assumir o papel de protagonista, mobilizando a sociedade na busca e na implantação de soluções efetivamente transformadoras. Não se pode mais dissociar as ações de governo dos impactos ambientais que as mesmas podem acarretar ao meio ambiente. Reduzir impactos, aumentar ações de recuperação e ampliar as de preservação são caminhos para que se estabilize e posteriormente se reverta o avançado processo de degradação ambiental.
 
O “x” da questão é que agora essas ações precisam ser realizadas conjuntamente, em paralelo, como diz a velha e boa expressão: pegar o bonde andando. Ao mesmo tempo em que se planeja o futuro, é preciso adotar medidas urgentes para amenizar os estragos trazidos pela natureza, na estiagem ou na cheia. Enquanto o futuro não chega, que pelo menos o dever de casa seja feito.
 
Municípios precisam ter plano de ação para atender prontamente sua população. Vejo com tristeza, por exemplo, nossa região da baixada maranhense castigada pelo atual período de chuva, em particular minha terra Cajari. É triste ter que presenciar gente do meu chão abandonando suas casas em razão das cheias e não ter o amparo necessário do poder público. Baixada tão rica e ao mesmo tempo tão castigada por gestões que não colocam as pessoas em primeiro lugar.
 
Por outro lado, com apoio dos estados e do governo federal, os municípios precisam ser bem aparelhados.  Bombeiros precisam estar distribuídos estrategicamente e a defesa civil atenta aos acontecimentos, se possível agindo preventivamente nas áreas de risco.
 
Boa parte da população, maranhense e brasileira, agoniza frente às intempéries vividas nos últimos meses. Uma secessão de tragédias de grandes proporções tem deixado cidades inteiras órfãs em todo o país, com destaque para a do Rio de Janeiro, mais recentemente. Lá, pessoas morreram afogadas e soterradas. Como um castelo de areia, a cidade maravilhosa ruiu e mostrou sua face mais frágil nos últimos dois meses.
 
Mas a vida precisa seguir. Frente às incertezas que se sucedem – sobre ter sido apenas um evento raro ou se passaremos a enfrentar cada vez mais turbulências como as vistas recentemente – precisamos, todos, levantar nossas cabeças e continuar em frente.
 
As cartas da nossa sobrevivência estão sobre a mesa e as soluções esperando para serem adotadas. Trilhar novos rumos não é mais uma questão de opção, mas uma obrigação que agora envolve todos nós, governo e sociedade.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.

QUE RUMO ESTAMOS TOMANDO

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Gostaria de poder neste espaço em branco rabiscar apenas belos poemas e retrato de um mundo idílico no qual tudo é possível. Mas infelizmente os fatos da vida real que se sucedem me impõem a busca da reflexão e a ampliação do diálogo.
 
Há algumas semanas venho analisando alguns acontecimentos e, inquieto, pergunto-me de forma insistente: para onde estamos caminhando? Que rumo adotamos a partir de atos tão bárbaros cometidos gratuitamente? Não falo de forma particular, razão pela qual não pretendo me ater a um caso em especial. Convido o leitor que me acompanha semanalmente para que possa, também, fazer um autoexame de consciência acerca do cotidiano para que esse diálogo possa ter ressonância.
 
Neta articula o assassinato da avó, saca dinheiro da pensão e faz uma festa; rapaz flagra a namorada dormindo ao lado do cunhado após festa e, tomado pela fúria, mata os dois; mulher é assassinada porque denunciou agressão do marido; jovens planejam e executam um bárbaro plano para matar alunos de uma escola; o assaltante que não satisfeito em levar os pertences, dispara a queima-roupa contra a indefesa vítima; jovem em depressão passa uma corda no pescoço e põe fim à própria vida. Em comum? A crueldade na sua essência mais pura.
 
Acontecimentos dessa estirpe têm me tirado o sono ultimamente, muito mais do que o trabalho é capaz de me consumir. Não posso conceber, por exemplo, um pai enterrar um filho, uma filha. Não é a ordem natural das coisas.
 
Naturalmente que a violência não é de agora, está no cerne da nossa evolução. Na antiguidade, povos brigavam entre si pela disputa de terras; estados se digladiavam por riquezas além-mar; nações mediam forças por disputas de mercado e poder frente a um modelo global. Condutas estas que, apesar de reprováveis, tinham um pano de fundo, que, em alguns casos, remetia à própria sobrevivência dos povos.
 
Em contrapartida, o que se assiste nos dias atuais é uma violência desenfreada, sem limites, e totalmente gratuita. Não têm justificativas. Somos os únicos seres dotados de racionalidade e, paradoxalmente, os únicos dispostos a matar o próximo por motivos fúteis e com altas doses de crueldade. Mesmo estando a anos-luz daquela época em que nos digladiávamos, parece estarmos ainda afundados em nossa barbárie existencial.
 
Daí que penso como tema central dessa minha reflexão a forma como os pais vêm educando os filhos. Chego a uma infeliz conclusão de que estamos falhando nessa missão. Na vã tentativa de sermos melhores que nossos pais e avós, caímos no engano de querer satisfazer todas as necessidades de nossa prole com bens materiais que a nós não estavam acessíveis.
 
Há também aqueles pais que trabalham muito e simplesmente não encontram tempo para nada, embora sempre haja espaço para as postagens das redes sociais. Eximem-se da culpa de sua ausência em razão da puxada rotina e buscam suprir tal lacuna com quinquilharias materiais que não conquistam nem confiança nem o amor.
 
Antes de apontar para as tragédias da vida privada, mas que a todos já interessam, devíamos parar e analisar quais caminhos estamos sedimentando para nossos filhos. Debater com os vizinhos, com a escola, com a família é uma forma de traçar uma caminhada segura e equilibrada. Para o bem social, não podemos permitir que toda uma geração cresça cheia de um vazio existencial que a direciona para a tomada de atitudes extremistas.
 
E não falo permitir sob a ótica da imposição, mas da educação, embora não seja eu um pedagogo. No entanto, não consigo internalizar a ideia de educar sem dar limites, sem dizer não. Crianças e adolescentes precisam de regras para crescerem em comunhão com a sociedade que os cerca. Há um mundo fora dos computadores e tablets que merece ser explorado.
 
A escola tem seu papel, é fato. O corpo diretivo deve atuar para inibir práticas como bullying, racismo e preconceito, atuando na promoção do conhecimento e maior integração. Mas a escola somente não é capaz de formar o cidadão. Incutir nos jovens que eles são detentores de direitos, mas que os deveres não podem e não devem ser negligenciados na relação com o próximo é papel de todos e, fundamentalmente, das famílias.
 
Mais do que qualquer outra instituição é dos pais, da família, o compromisso de estar sempre presente, compartilhar do dia-a-dia, acompanhar o desenvolvimento na escola, praticar atividades esportivas, assistir bons filmes juntos. Está aí um atalho para conquistar a confiança que se precisa.
 
Daí por diante é repassar ensinamentos de que o mundo funciona de forma sistêmica, onde nossos atos implicam em consequências. Criar, desde cedo, senso de responsabilidade é tarefa árdua, mas necessária. Ensinar a amar, ter compaixão, ser generoso e colaborativo ajuda a derrubar os muros que aprisionam os jovens em calabouços sombrios.
 
Os jovens estarão mais propensos a reproduzir na fase adulta aquilo que absorveu da sua família quando criança. Não se pode esperar uma pessoa afetuosa, honesta, gentil, respeitadora e que zela pelo bem comum, se esses valores morais e éticos não estiveram presentes em sua formação. Nesse ponto, ouso dizer que, com raras exceções, a matemática social é exata e traz um ingrediente rousseauniano.
 
Assim, a violência vista aos quatro cantos do país também está na conta de cada um de nós. Naturalmente, não se exclui a responsabilidade do Estado, que é vital na manutenção da paz social, mas a segurança, tal como dito em nossa Carta Magna, é dever de todos. Portanto, cabe a todos repassar às gerações futuras os valores capazes de reedificar uma sociedade justa e igualitária.
 
Longe das ficções – onde brigamos contra alienígenas, máquinas e até dinossauros pela nossa sobrevivência –, na vida real o único que pode pôr em risco a espécie humana está diante do próprio espelho. Não sei por onde nos perdemos nesse tortuoso desafio, mas é preciso que encontremos urgentemente um atalho que nos leve de volta ao caminho da paz.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.

UMA FOLHA DE PAPEL

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Nada mais necessito. Alimento-me da palavra, das ideias, das ilusões fugazes de um mundo que vai do real ao abstrato no simples limiar do pensamento. Sou poeta, escritor, literato, ensaísta ou apenas um entusiasta das palavras. Uma folha de papel e um lápis são as ferramentas que me bastam.
 
Sentado na calçada, sob uma marquise; ou à sombra de uma árvore, no banco de uma praça; nada mais preciso. Apenas os meus instrumentos são suficientes. Uma folha em branco que logo pode se transformar em uma macabra história, de narrativa sombria, digna de ocupar as mais lidas páginas policiais.
 
Nela transcrevo o real, a vida nua a crua, a história da vida como ela é. Uma vida sem dó nem piedade, que castiga e oprime. Que segrega, que mata, seja por causa da atuação, da cor, do sexo, das opções sexuais. Por ela mostro a realidade, a escassez, a aridez do sertão, os pés descalços e rachados que marcam a falta de oportunidades nas mãos calejadas do sertanejo.
 
Na folha de papel coloco as dores do povo baixadeiro, que conhece cada palmo dos segredos da sua peculiar natureza. Das secas aos alagamentos, do vai e vem nos campos, a pé ou de canoa, em busca do alimento diário. Escrevo o voo sorrateiro da jaçanã, a escapada da piranha que não se deixa alcançar pela malha da tarrafa.
 
Escrevo a infância. Uma infância sofrida, que levanta cedo, que trabalha na lavoura, que edifica a casa, que se aventura na pesca. Mas que também é criança, do sorriso maroto, da alegria escancarada, a ingenuidade peculiar que corre de pés descalços para driblar as adversidades da vida com uma velha bola de meia improvisada.
 
Na folha de papel escrevo a vida. Uma linda e bela mensagem daquelas que falam de quem faz o bem sem ver a quem. Ou mesmo deixar marcada, para que não se apague, a chama ardente de uma linda e platônica história de amor que faria qualquer Shakespeare suspirar e, tal como ele, se eternizar na literatura romântica ao longo dos séculos.
 
Papel. Nele, até a mais ácida crítica é rabiscada em rebuscados versos, cujo simples inverso encontra mais significado do que a mais explicita literalidade. Nada mais preciso, além das apreensões imprecisas represadas pelo olhar já quase cansado de uma vida que desfila carregada de narrativas que só querem ser dissertadas.
 
Uma folha de papel, um lápis. E aquele momento desapercebido, que não mais existe, passa a existir para posteridade. Escrevo, logo existe. Pode ser branca, amarelada, amassada, rasgada ou aquele velho e cinzento papel de pão. Nas mãos do poeta, a mágica ganha vida para que o bailar das letras transforme em colorido aquilo que é captado em preto e branco do antagônico cotidiano.
 
É a folha que nos acompanha ao longo de toda a vida. Nela é impressa nossa primeira marca, nosso nome. Acumulamos papeladas para tudo que fazemos em nossas relações sociais, aqueles que nos impõem deveres, bem como os que nos asseguram direitos. Assim como aquele que encerra nossa breve passagem sobre este chão.
 
É o papel do jornal matinal que nos informa, do livro que transporta conhecimento aos quatro cantos. Que permitiu a criação do mundo virtual, paralelo, que também tem os seus “papeis”, ainda que não tangíveis. O mundo só é mundo, real ou virtual, porque alguém ousou rabiscar as primeiras doses de conhecimento, permitindo a evolução da sociedade.
 
Apenas papel? Depende. Em branco, apenas papel. Mas certamente um convite para que uma imensidão de ideias pensamentos possam ser ali concretizados. Como cantou o poeta, numa folha qualquer se desenha um sol amarelo, uma luva, um castelo ou um guarda-chuva. A folha de papel é o quintal da imaginação, com um fim que ninguém sabe onde vai dar, se não tentar.
 
Não deixe a vida passar em preto e branco. Sempre haverá tempo de colorir o próprio arco-íris, de contornar as próprias nuvens, carregadas de angústias, de alegrias, de aspirações, de conquistas. Aqui, mais um papel, uma simples folha de papel que, só de birra, teimei em não deixar em branco.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.